sexta-feira, 20 de junho de 2014

Teste do Pezinho

Teste do Pezinho

A triagem neonatal - popularmente conhecida como "teste do pezinho" - é uma ação preventiva que permite fazer o diagnóstico de diversas doenças congênitas ou infecciosas, assintomáticas no período neonatal, a tempo de se interferir no curso da doença, permitindo, desta forma, a instituição do tratamento precoce específico e a diminuição ou eliminação das sequelas associadas a cada uma dessas doenças.
Toda criança nascida em território nacional tem o direito à triagem neonatal. Os exames realizados detectam se o bebê tem possibilidade de apresentar algum distúrbio que possa interferir no desenvolvimento normal.
Na Maternidade Albert Einstein esse exame abrange vários tipos de testes, o que se chama de Triagem Neonatal Ampliada -, que poderão indicar uma série de moléstias a serem tratadas precocemente. O teste do pezinho é realizado em todos os bebês. O resultado estará disponível na internet, mediante senha de acesso, quinze dias após a alta. Um contato poderá ser feito antes desse prazo, para confirmação, caso haja alguma alteração.
Na Maternidade Albert Einstein, o teste do pezinho detecta as seguintes doenças:

FENILCETONÚRIA

Doença causada pela falta de uma enzima que transforma a fenilalanina - um aminoácido presente em todas as proteínas - em tirosina. Ocorre o acúmulo de fenilalanina - que poderá afetar o cérebro e levar à deficiência mental.
O nome da doença deve-se ao fato de haver eliminação excessiva de fenilalanina na urina, que fica com um odor semelhante ao do mofo. As crianças nascem normais mas à medida que recebem alimentos ricos em fenilalanina, passam a acumulá-la no corpo sem conseguir metabolizá-la. A frequência dessa doença é de 1 caso em cada 10.000 recém-nascidos.
A fenilalanina está está presente principalmente em feijão, lentilha, grão-de-bico, soja, carnes, aves, peixes e frutos do mar, ovos, leite e derivados, leite materno ou fórmula infantil. Também em alguns alimentos como citados a seguir: arroz, beterraba, cenoura, tomate, cebola, batata, batata baroa, brócolis, repolho, abóbora, abobrinha, berinjela, couve-flor, chuchu, almeirão, couve, maçã, mamão, abacaxi, banana, figo, laranja, maçã, manga, melancia, melão, pera e pêssego, entre outros.
Como se transmite?
Através dos genes dos pais. Se os pais forem portadores, existirá 25% de chances de terem um filho com o problema.
Qual a importância desse exame?
A suspeita diagnóstica se faz quando o nível de fenilalanina no sangue estiver acima de 20 mg/dL e o nível de tirosina no plasma for normal ou reduzido. A causa mais comum de aumento de fenilalanina no sangue do recém-nascido (RN) é uma circunstância transitória chamada 'tirosinemia transitória'. Nesta condição ocorre aumento tanto de tirosina como de fenilalanina, por atividade inadequada da enzima que age sobre a tirosina e é dependente de vitamina C. Isto ocorre principalmente em RN prematuros (embora também possa ocorrer em RN normais) porque as vias metabólicas da fenilalanina só se desenvolvem a partir dos últimos meses da gravidez. A tirosinemia transitória geralmente regride, não implicando nos mesmos riscos da fenilcetonúria.
Qual é o tratamento da fenilcetonúria?
Exclusão de fenilalanina da dieta. Tem bom prognóstico para o desenvolvimento nervoso, principalmente se iniciada antes de 3 semanas de vida.

GALACTOSEMIA

O que é?
É uma deficiência de uma enzima (galactose-1-fosfato uridil transferase) responsável pelo processamento do açúcar contido no leite (chamado galactose). Quando as crianças com deficiência desta enzima ingerem leite, ocorre acúmulo de galactose nas células do fígado, dos rins, do cérebro e dos olhos, acarretando prejuízo para esses órgãos.
Os sintomas incluem problemas de coagulação, icterícia (pele amarelada), hipoglicemia (baixa da taxa de glicose no sangue), glicosúria (excesso de glicose na urina), excesso de acidez no sangue e catarata.
Como se transmite?
Através dos genes dos pais e de forma recessiva. Ocorre numa frequência de 1 criança doente em cada 60.000 nascimentos.
Qual a importância desse exame?
O diagnóstico precoce pode evitar um agravamento das consequências do excesso de galactose no corpo. Nestes casos, a criança não deve tomar leite ou substâncias que contenham lactose e galactose.

DEFICIÊNCIA DE BIOTIONIDASE

O que é?
A deficiência de uma enzima que reaproveita uma vitamina chamada biotina e que resulta na falta desta vitamina. As crianças com esta deficiência podem ter convulsões, fraqueza muscular, erupções na pele, queda de cabelo, acidez no sangue e deficiência imunológica.
Como se transmite?
Através dos genes dos pais.
Qual a importância desse exame?
A detecção precoce da falta da enzima possibilita o tratamento precoce.
Qual é o tratamento da deficiência da biotinidase?
Altas doses de biotina.

ANEMIA FALCIFORME

O que é?
É uma alteração na composição da hemoglobina que leva à formação de uma hemoglobina anormal chamada de S.
Como se transmite?
As hemoglobinopatias (doença da hemoglobina) são herdadas geneticamente dos pais. A presença de doença (anemia) e outros sintomas depende da intensidade e também do tipo de alterações da hemoglobina.
Quais são as consequências para o recém-nascido?
  • Doente: isto é, se ele for homozigoto, por ter herdado um gene da anemia da mãe e um gene do pai. É uma condição rara e atinge aproximadamente 8 indivíduos em cada 100.000 nascimentos. O recém-nascido não apresenta sinais da doença porque nasce com uma quantidade de hemoglobina fetal aumentada e esta proporciona proteção contra os efeitos da hemoglobina S (anemia, icterícia, dores ósseas, articulares e abdominais, infecções de repetição) até os seis meses de idade. Nessa ocasião já se pode confirmar o diagnóstico da anemia falciforme pelo predomínio de mais de 50% de hemoglobina S nos glóbulos vermelhos.
  • Portador: isto é, se ele for heterozigoto, por ter herdado o gene da anemia de apenas um dos pais. É mais frequente e atinge 500 indivíduos em cada 100.000 nascimentos. A criança portadora não apresenta sinais de doença até os seis meses de vida. Nestes casos, podem aparecer sintomas similares à anemia falciforme, com intensidade acentuadamente menor, e também sempre relacionada a situações desencadeantes como, por exemplo, infecções pulmonares graves, anestesia com baixa oxigenação, trabalho em condições de baixa oxigenação, avião despressurizado, grandes altitudes e raramente após exercício físico muito intenso. Em geral, este tipo de portador permanece assintomático durante toda a vida e o diagnóstico só virá a ser feito com exames de laboratório.
Qual é a importância desse exame?
Se tornar-se positivo, indicam-se novos exames após 6 meses de vida. Os pais também deverão realizar a investigação de hemoglobinopatia.
Qual é o tratamento para a anemia falciforme?
O recém-nascido está protegido contra as manifestações clínicas da anemia falciforme até os 6 meses, pela presença de hemoglobina fetal. Existe necessidade de acompanhamento médico para todo o doente de anemia falciforme. O traço falciforme NÃO é doença.

GLICOSE 6-FOSFATO DESIDROGENASE (G-6 PD)

O que é?
A deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) é o distúrbio metabólico mais comum dos glóbulos vermelhos. É causado por alterações de enzimas fundamentais para a estabilidade da membrana celular dos glóbulos vermelhos. Pacientes com a deficiência de G6PD podem apresentar destruição de glóbulos vermelhos (anemia hemolítica) e icterícia.
Como se adquire a doença?
É uma doença herdada geneticamente ligada ao cromossomo X, acometendo principalmente pacientes do sexo masculino. No Brasil, mais de 1% da população é portadora da doença.
Quais as consequências para o recém-nascido?
A grande maioria dos indivíduos deficientes de G6PD é assintomática. Alguns pacientes têm crises agudas de anemia por destruição dos glóbulos vermelhos quando entram em contato com certos alimentos - como a fava -, com substâncias químicas que podem ou não ser medicamentos (com Aspirina, sulfa etc) e diversas infecções virais. As crises de anemia hemolítica aguda se produzem pela destruição dos glóbulos vermelhos dentro do vaso sanguíneo e clinicamente se apresentam com anemia, icterícia e aumento do baço.
Qual a importância desse exame?
É importante para triagem, devendo ser realizados exames específicos para o diagnóstico.
O que fazer se o resultado estiver alterado?
Não é necessário tratamento se o bebê não apresentar manifestações clínicas. Deve-se, todavia, evitar uma série de medicamentos com ácido acetil salicílico, sulfas e outros com potencial para desencadear a destruição de glóbulos vermelhos.

HIPOTIREOIDISMO CONGÊNITO

O que é?
A Triiodotironina (T3) e a Tiroxina (T4) são os hormônios produzidos pela glândula tireoide. São fundamentais para a regulação da produção e do consumo de energia pelo organismo humano. Além disso, os hormônios tireoidianos atuam, desde a fase intra-uterina, estimulando o processo de crescimento e desenvolvimento e influenciando decisivamente a maturação do sistema nervoso central. A deficiência desses hormônios leva a um quadro clínico bem definido denominado hipotireoidismo.
Como se adquire a doença?
O hipotireoidismo pode ser adquirido em vida, por meio de alterações auto-imunes, inflamatórias ou infecciosas, e também antes do nascimento, quer por alterações genéticas, quer por alterações ambientais e do organismo materno.
Quais as consequências para o recém-nascido?
Considerando-se a forte influência dos hormônios tireoidianos sobre o crescimento e o desenvolvimento neuropsicomotor, fica fácil compreender que a falta deles pode levar ao prejuízo no crescimento da criança e a um retardo mental, que será tanto maior, quanto mais tempo esta falta persistir.
Qual a importância desse exame?
Os sinais e sintomas do hipotireoidismo são escassos nas primeiras semanas de vida. Sabe-se que ocorre um caso de hipotireoidismo congênito a cada 4.000 recém-nascidos vivos, proporção que aumenta para 1 em 2.000 crianças em regiões carentes de iodo.
A solução adotada por um grande número de países foi determinar a obrigatoriedade da avaliação da função tireoidiana em todos os recém-nascidos. Esta avaliação é feita de rotina pelo teste do pezinho, por meio da dosagem de T4 e TSH.
O que fazer se o resultado estiver alterado?
Uma vez detectada alteração nos testes de triagem, repete-se a dosagem, no soro do sangue, uma semana depois. A alta sensibilidade do primeiro exame é extremamente importante para evitar que qualquer caso passe despercebido.
Muitas crianças apresentam resultados normais, o que descarta o diagnóstico de hipotireoidismo na maioria das vezes. Aquelas crianças em que os exames persistem alterados devem ser encaminhadas rapidamente a um especialista para determinação da possível causa do hipotireoidismo e da estratégia do tratamento. Quando diagnosticado no momento certo o hipotireoidismo é facilmente tratado e controlado, sem nenhum prejuízo para o crescimento e desenvolvimento da criança.

HIPERPLASIA CONGÊNITA DA SUPRARRENAL

O que é?
É um defeito na produção de hormônios pelas glândulas suprarrenais ou adrenais. Na tentativa de compensação dessa deficiência, a hipófise produz um excesso do hormônio que estimula a suprarrenal, causando um aumento do tamanho dessas glândulas e, muitas vezes, o aumento na produção dos hormônios que controlam a masculinização do corpo, sem compensar a falta dos hormônios que controlam o metabolismo da água e do sal do organismo. A alteração mais comum é a deficiência da enzima 21-hidroxilase progesterona.
Como se adquire a doença?
O funcionamento de cada uma das enzimas que regulam a produção dos hormônios da glândula suprarrenal é feito por genes. Qualquer alteração ou mutação destes genes pode acarretar um defeito, resultando na falta de um hormônio ou acúmulo de outro. A doença ocorre em 1 de cada 12.000 crianças nascidas vivas. Entre 1 e 2% da população é constituída de heterozigotos, isto é, de portadores do gene e não da doença.
Quais as consequências para o recém-nascido?
A deficiência da enzima 21-hidroxilase pode levar a um quadro de masculinização (virilização) da criança e eventualmente a vômitos e desidratação, com perda de sal e água.
Qual a importância desse exame?
Diagnosticar precocemente a criança doente para receber reposição do hormônio e evitar as consequências da doença.
O que fazer se o resultado estiver alterado?
Esta dosagem é extremamente sensível, isto é, detecta mínimas alterações. RN prematuros e alguns RN de termo podem ter níveis acima do esperado por influência dos hormônios maternos. Desta forma os casos em que a mesma se encontra alterada devem ser considerados apenas “suspeitos”. O diagnóstico definitivo somente poderá ser feito após observação clínica e a efetivação de novos exames, solicitados pelo próprio Laboratório Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) ou por endocrinologista que é o especialista nesta doença.

TOXOPLASMOSE

O que é?
Toxoplasmose é uma doença causada por um parasita, o Toxoplasma gondii. Ele é um parasita do intestino de gatos, onde se multiplica. Em outros animais o toxoplasma não completa seu ciclo: invade, forma cistos nos músculos, cérebro, retina e outros órgãos, mas não se multiplica no intestino.
Como se adquire a doença?
O grande transmissor é o gato, mas qualquer animal pode ter cistos na sua musculatura, e se o homem consumir essa carne crua, pode adquirir a toxoplasmose. A toxoplasmose parece não ser transmissível de homem a homem, exceto durante a gravidez. Na gravidez a imensa maioria dos casos de transmissão ocorre apenas se a mãe se contaminou e teve doença exatamente durante a gravidez, em qualquer fase desta. Casos de toxoplasmose congênita ligada a antigas infecções na mãe são raras, embora existam.
Quais as consequências para o recém-nascido?
Podem ser sérias, com calcificações cerebrais, malformações, doença sistêmica grave, ou podem se expressar, no futuro, como doenças da retina. Muitos casos não apresentam alterações clínicas ou sintomas, mas há alguma evidência que a toxoplasmose, se não tratada nestes casos, leva à diminuição do potencial intelectual destas crianças, sem que isto esteja claramente mensurado.
Qual a importância desse exame?
Avalia se existem anticorpos contra o toxoplasma feitos pela criança, não pela mãe. Esta diferenciação é crítica, pois a imensa maioria das pessoas (90 % ou mais, em São Paulo) tem anticorpos contra o toxoplasma, por conta de infecções anteriores. A presença de anticorpos tipo IgG de origem materna na criança não tem o menor significado patológico.
O que fazer se o resultado estiver alterado?
Primeiro é necessária a confirmação diagnóstica. Se confirmado, é fundamental informar imediatamente ao pediatra o fato pois a toxoplasmose tem tratamento efetivo que deve ser iniciado mesmo que não haja nenhuma alteração clínica.
Publicada em fevereiro/2010
Fonte: http://www.einstein.br/einstein-saude/gravidez-e-bebe/Paginas/teste-do-pezinho.aspx

Doença Falciforme - Hemoglobinopatia

Doença Falciforme - Hemoglobinopatia

A Doença Falciforme é uma doença herdada em que os glóbulos vermelhos do sangue (hemácias), diante de certas condições, alteram sua forma e se tornam parecidos com uma foice, daí o nome falciforme.

Normalmente as hemácias têm a forma de um disco bicôncavo. Essas células são muito flexíveis e passam facilmente por pequenos vasos sangüíneos.
Desta forma elas são perfeitamente adaptadas para a entrega do oxigênio para os vasos menores e para as áreas mais remotas do corpo. Dentro de cada hemácia existem milhões de moléculas de hemoglobina (proteína formada de uma seqüência específica de aminoácidos) que realizam o transporte de oxigênio ao nosso organismo.

Na Anemia Falciforme o aminoácido ácido glutâmico é substituído por outro chamado valina. Esta substituição de aminoácidos é que causa o fenômeno de afoiçamento.

Na Doença Falciforme as hemácias contêm uma hemoglobina que é um pouco diferente da hemoglobina normal. A hemoglobina produzida é anormal e é chamada de S. Quando a pessoa recebe de um dos pais a hemoglobina A e de outro a hemoglobina S, ele é chamado de "traço falcêmico", sendo representado por AS. O portador de traço falcêmico não é doente, sendo, portanto, geralmente assintomático e só é descoberto quando é realizado um estudo familiar.

Quando uma pessoa recebe de ambos, pai e mãe, a hemoglobina S, ela nasce com Anemia Falciforme cuja representação é SS. Então os pais do paciente com Anemia Falciforme deverão ser portadores do traço ou doentes.

Os glóbulos vermelhos em forma de foice se agregam e dificultam a circulação do sangue nos pequenos vasos do corpo. Com a diminuição da circulação ocorrem lesões nos órgãos atingidos, causando crises de dor principalmente nos ossos ou articulações, no tórax, no abdômen, podendo atingir qualquer local do corpo, proveniente da obstrução de pequenos vasos pelos glóbulos vermelhos em foice. Nas crianças pequenas as crises de dor podem ocorrer nos pequenos vasos das mãos e dos pés causando inchaço, dor e vermelhidão no local.

A icterícia é um sintoma mais freqüente nesta doença. Quando o glóbulo vermelho se rompe, aparece um pigmento amarelo no sangue que se chama bilirrubina. A urina se torna de cor de coca-cola e o branco dos olhos se torna amarelo.

O afoiçamento dos glóbulos vermelhos no baço pode levar ao seqüestro do sangue, ou seja, há uma grande atividade do baço na destruição desses glóbulos vermelhos causando, palidez, dor e aumento do baço .
Outros sintomas como Úlceras de perna ocorrem, freqüentemente, próximas aos tornozelos.

Diferentes situações podem levar as células com hemoglobina S a se afoiçarem. As mais comuns são: infecção, febre, exposição a temperaturas muito baixas ou muitos altas no ambiente e desidratação. Evitando-se sempre que possível estas situações a pessoa com doença falciforme pode reduzir o risco de afoiçamento de hemácias. Quando indicado pelo médico, toma-se penicilinas para evitar-se infecções a elas sensíveis. Existem outras maneiras que ajudam a prevenir e tratar o afoiçamento e a dor, isto é, bebendo muito líquido.

O diagnóstico é feito através de testes hematológicos como o teste de afoiçamento e estudo da hemoglobina.  À medida que a população toma consciência da gravidade dessa doença e de sua alta prevalência, mais ela deverá buscar diagnóstico precoce com o teste do pezinho em recém nascidos ou o teste de afoiçamento em todas as pessoas afro – descendentes.

A doença falciforme é uma das doenças hereditárias mais comuns no Brasil. Ela afeta principalmente a etnia negra. Cerca de 1 em cada 8 afro-brasileiros tem o que é chamado de traço falcêmico.

Fonte: http://www.ameo.org.br/conhecimento/48-doenca-falciforme-hemoglobinopatia


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Enfermagem em Terapia Nutricional

Enfermagem em Terapia Nutricional 

Cláudia Matsuba 
Enfermeira, especialista em Nutrição Parenteral e Enteral e em UTI. 
csmatsuba@uol.com.br 


Estudos demonstram que a prevalência de pacientes desnutridos no âmbito hospitalar encontra-se entre 40 a 50%, sendo maior durante a internação. O Inquérito Brasileiro de Avaliação Nutricional - IBRANUTRI , realizado, em 1996, pela Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE) em hospitais do SUS foi o primeiro estudo brasileiro a mapear a desnutrição hospitalar no Brasil e representou alerta e indício de que pacientes não eram avaliados da maneira como deveriam.

E sendo a desnutrição considerada o distúrbio da saúde de maior prevalência no hospital, justificam-se seu diagnóstico e tratamento por meio de uma Terapia Nutricional, que é o conjunto de procedimentos terapêuticos para a manutenção ou recuperação do estado nutricional do paciente por meio da Nutrição Parenteral, por cateteres intravenosos ou Enteral, por sondas enterais, de gastrostomias ou jejunostomias.

A atuação multidisciplinar na Terapia Nutricional (TN) é uma necessidade para o tratamento do paciente e foi sentida, de início, nos Estados Unidos. Frente aos altos índices de desnutrição, em 1975, a Sociedade Norte-Americana de Nutrição Parenteral e Enteral (ASPEN) criou um comitê científico multiprofissional voltado para a melhoria no atendimento, educação e pesquisa em terapia nutricional, procurando nortear a formação de equipes com diferentes profissionais. No Brasil, em pesquisa realizada pela SBNPE, verificou-se maior existência de equipes formadas em São Paulo e no Rio de Janeiro desde 1978.

Mas foi somente em 1998 que o Ministério da Saúde, por meio de Portarias, determinou que instituições hospitalares tivessem uma Equipe Multidisciplinar de Terapia Nutricional (EMTN), constituída de, pelo menos, um profissional das áreas médica, enfermagem, nutrição e farmácia.

O Portal da Enfermagem conversou com a enfermeira Cláudia Matsuba, especialista em Nutrição Parenteral e Enteral e em UTI, coordenadora técnico-administrativa da EMTN do Hospital do Coração, de São Paulo, e atual presidente do Comitê de Enfermagem da SBNPE. Neste bate-papo, ela descreve a atuação da enfermagem enquanto membro da EMTN, fala dos avanços na terapia nutricional, dos cuidados e responsabilidades que a equipe multidisciplinar tem frente ao paciente, como é a especialização em enfermagem na área, dentre outros assuntos relacionados ao tema.



Quem são os pacientes mais propensos à desnutrição hospitalar?

As principais situações que podem expor o paciente em risco de desnutrição estão relacionadas à: redução na ingestão de alimentos (anorexia, náusea, vômitos, disfagia, dor, obstrução gastrointestinal, problemas psicológicos), gasto energético aumentado (neoplasias, HIV, doenças inflamatórias, cirurgias, sepse, queimaduras, úlceras e fístulas), alterações no metabolismo dos nutrientes (falência orgânica, traumatismos), perda de nutrientes (doenças que evoluem com má absorção, hemorragias, diarréia, síndrome nefrótica, enteropatias, síndromes consuptivas como o câncer) e fatores iatrogênicos (falha em diagnosticar a desnutrição ou pacientes em risco, escasso controle e anotação de peso dos pacientes na admissão e no decorrer da internação, medicamentos, terapia nutricional inadequada para a situação clínica do paciente, jejum prolongado e injustificado como para cirurgias e exames etc.). Alguns autores também destacam o baixo nível sócio-econômico, nível educacional, carência de informações sobre nutrição, nível funcional físico para satisfazer às atividades da vida diária, dentição e até mesmo, isolamento.


Quais foram os principais avanços da terapia nutricional?

O impacto negativo da desnutrição hospitalar é atualmente considerado um dos problemas mais graves da área da saúde, com conseqüente aumento nas taxas de morbidade, mortalidade, tempo de internação e custos hospitalares.

Existem inúmeros avanços desde as primeiras aplicações desta terapia. A terapia nutricional enteral precoce poderia ser um dos grandes avanços, sendo entendido como a introdução da dieta nas primeiras 24 a 48 horas após admissão hospitalar. Este conceito nasce a partir de estudos experimentais com objetivo de diminuir a resposta inflamatória isquêmica, evitando liberação exagerada de citocinas, melhorar a função imunitária intestinal, reduzir a produção de hormônios catabólicos e preservar o estado nutricional. Outro avanço está relacionado aos imunonutrientes encontrados em determinados alimentos, responsáveis pela modulação da atividade do sistema imunológico ou das conseqüências de sua ativação, como a arginina, a glutamina, os ácidos graxos (ômega 3), os nucleotídeos e os antioxidantes (vitamina C, zinco e selênio). As fórmulas enterais e parenterais enriquecidas com estes nutrientes específicos têm a propriedade de atenuar a resposta inflamatória aguda, aumentar a proliferação de células de defesa e reduzir o estresse oxidativo celular, com efeitos benéficos em diversas situações clínicas.  Graças a estes avanços, a dieta enteral e a nutrição parenteral passaram a ser denominadas de terapia nutricional, sendo específica para cada condição clínica, como nas situações de sepse, pneumopatia, úlceras por pressão, nefropatia, dentre outros. Concomitante a estas mudanças, observamos também os avanços tecnológicos relacionados aos dispositivos e equipamentos, como as sondas gastrojejunais para pacientes com alto refluxo permitindo alimentação pós-pilórica e bombas infusoras, garantindo acurácia e segurança na administração.


Em qual legislação está embasada a obrigatoriedade de uma Equipe Multidisciplinar de Terapia Nutricional (EMTN) nos hospitais brasileiros?

As legislações vigentes para a prática multiprofissional são descritas nas portarias do Ministério da Saúde: Portaria nº. 272 de 08/04/1998 e Resolução da Diretoria Colegiada nº. 63 de 06/07/2000. Segundo as legislações, EMTN é um grupo formal e obrigatoriamente constituído de, pelo menos um profissional médico, enfermeiro, nutricionista, farmacêutico, habilitados e com treinamento específico para a prática da Terapia Nutricional (TN), podendo ainda incluir profissionais de outras categorias a critério da unidade hospitalar.


“Graças a estes avanços, a dieta enteral e a nutrição parenteral passaram a ser denominadas de terapia nutricional, sendo específica para cada condição clínica”


Quais são as atribuições da EMTN?

Por tratar-se de um grupo de apoio especializado e regido por normatizações, a EMTN possui várias atribuições, dentre elas:

- Estabelecer as diretrizes técnico-administrativas que devem nortear as atividades da equipe e suas relações com a instituição;

- Criar mecanismos para o desenvolvimento das etapas de triagem e vigilância nutricional em regime hospitalar, ambulatorial e domiciliar, sistematizando uma metodologia capaz de identificar pacientes que necessitam de terapia nutricional, a serem encaminhados aos cuidados da EMTN;

- Atender às solicitações de avaliação do estado nutricional do paciente, indicando, acompanhando e modificando a TN, quando necessário, em comum acordo com o médico responsável pelo paciente, até que sejam atingidos os critérios de reabilitação nutricional pré-estabelecidos;

- Assegurar condições adequadas de indicação, prescrição, preparação, conservação, transporte e administração, controle clínico e laboratorial e avaliação final da terapia nutricional enteral (TNE) e ou terapia nutricional parenteral (TNP), visando obter os benefícios máximos do procedimento e evitar riscos;

- Capacitar os profissionais envolvidos, direta ou indiretamente, com a aplicação do procedimento, por meio de programas de educação continuada, devidamente registrados;

- Estabelecer protocolos de avaliação nutricional, indicação, prescrição e acompanhamento da TNE e TNP;

- Documentar todos os resultados do controle e da avaliação da TNE e TNP visando a garantia de sua qualidade;

- Estabelecer auditorias periódicas a serem realizadas por um dos membros da EMTN, para verificar o cumprimento e o registro dos controles e avaliação da TNE e TNP;

- Analisar o custo e o benefício no processo de decisão que envolve a indicação, a manutenção ou a suspensão da TNE e TNP.


E quais os principais benefícios desta implantação?

Na literatura e na prática clínica são descritos inúmeros trabalhos demonstrando os benefícios e resultados da atuação das EMTNs. As principais vantagens encontradas são: normatização de condutas, cumprimento ao acompanhamento de protocolos; redução de complicações mecânicas, infecciosas, gastrointestinais e metabólicas; redução de custos com o controle do desperdício na preparação, padronização de prescrições, solicitação de exames laboratoriais e uso de equipamentos específicos; melhor adequação nutricional atingindo aporte calórico-proteico desejado e maior segurança e efetividade por meio do gerenciamento de riscos por profissionais especialistas e capacitados.


Como se dá a escolha do profissional de enfermagem que atuará na Equipe?

A escolha ocorre geralmente por meio de indicação do coordenador clínico ou do gerente/diretor de enfermagem do respectivo serviço, em consenso com os demais membros da EMTN. Pela especificidade da área, recomenda-se que o enfermeiro possua especialização em TN ou desenvolva atividades correlacionadas para então atuar juntamente ao grupo.


Há alguma legislação específica que norteia a atuação da enfermagem?

Sim, as portarias do Ministério da Saúde (RCD 63 de 06/07/2000 e Portaria 272 de 08/04/1998 direcionam para as Boas Práticas de Administração da Terapia Nutricional Enteral e Parenteral pela equipe de enfermagem sob supervisão do enfermeiro. A Resolução do Cofen nº 277 (16/06/2003) também aprova as normas de procedimentos a serem utilizadas pela equipe de Enfermagem na Terapia Nutricional. É importante destacar que além de assumir o acesso ao trato-gastrointestinal, o enfermeiro também possui a competência de sistematizar a assistência na Nutrição Oral Especializada.


Os hospitais contam com uma EMTN ou há equipes distintas em determinadas áreas?

Atualmente observam-se hospitais com EMTNs atuantes na área adulta e pediátrica concomitantemente e àquelas, com equipes distintas. Apesar desta distinção, na prática uma atuação conjunta parece ser mais favorável em decorrência da uniformidade na elaboração de diretrizes e normatizações. No entanto, a atuação conjunta dependerá da política institucional e do contrato de trabalho das equipes.


“recomenda-se que o enfermeiro possua especialização em TN ou desenvolva atividades correlacionadas para então atuar juntamente ao grupo”


Em que momento começa a participação da enfermagem na terapia nutricional?

A participação da enfermagem encontra-se em todos os níveis de assistência, seja na área hospitalar, como ambulatorial ou domiciliar. O enfermeiro exerce um papel fundamental, visto que é o profissional que freqüentemente estabelece o primeiro contato com o paciente durante a hospitalização. Este profissional pode detectar precocemente pacientes com perfil para terapia nutricional especializada por meio de uma avaliação objetiva simples (Triagem Nutricional). As primeiras observações podem ocorrer durante a própria admissão hospitalar, a partir do momento que o enfermeiro por meio dos instrumentos, como o Histórico de Enfermagem e a Triagem Nutricional detecta algum sinal de desnutrição ou risco de desnutrição. A Triagem faz parte da terapia nutricional e envolve o uso de técnicas simples de avaliação como exame físico e questionamento sobre hábitos alimentares, variações de peso recente de peso, sintomas gastrointestinais e capacidade funcional; independente do diagnóstico ou faixa etária e tem como base o uso de intervenções nutricionais específicas para prevenir ou tratar uma doença, lesão ou condição.

Outro momento importante ocorre durante a própria hospitalização, onde a equipe deve acompanhar a aceitação alimentar, assim como sintomas associados à intolerância do trato digestório (náuseas, vômitos e diarréia), perda de peso corpóreo, disfagia e risco de broncoaspiração, e a própria condição clínica, como nos pacientes internados em unidades de terapia intensiva, oncologia ou com riscos para formação de úlceras por pressão.


Quais são os procedimentos a serem seguidos pela equipe de enfermagem?

Considerando a TN como terapia de alta complexidade, é fundamental o conhecimento científico e colaboração da equipe, promovendo uma assistência segura e de qualidade. Esse cuidado envolve prover e manter a via de acesso escolhida; instalar e administrar a terapia prescrita em doses plenas (seja na forma gravitacional como em bombas infusoras), controlar efetivamente os volumes infundidos em comparação com os volumes prescritos, monitorar os efeitos das terapias e detectar e atuar precocemente, diante das intercorrências que os pacientes possam apresentar. Outro ponto fundamental é acompanhar a efetividade/ tolerância às terapias por meio de controles clínicos como controle da glicemia capilar, evolução do peso corpóreo, eliminação intestinal.


Quais os principais cuidados que a enfermagem deve ter frente à terapia nutricional?

A experiência como enfermeira exclusiva de EMTN e como docente de um curso de pós-graduação em Terapia Nutricional enriqueceram muito a prática profissional, permitindo implantar um serviço diferenciado e de qualidade no HCor.

Os principais cuidados de enfermagem estendem além das descritas nas legislações. A assistência ao paciente em uso desta terapia é ampla e deve ser sistematizada, permitindo visualizar/acompanhar todo o processo, desde a realização da prescrição médica até a finalização da terapia.

De forma resumida, a sistematização do Plano de Cuidados pode ser dividida em etapas:

1) Cuidados que precedem a instalação da TN;
2)Cuidados na instalação da TN;
3)Cuidados durante a infusão da TN;
4) Cuidados na finalização da TN.

Na etapa 1, o cuidado inicia-se durante a realização das visitas da equipe e elaboração das prescrições médicas. Pela responsabilidade na administração, é imprescindível que enfermeiros tenham conhecimento sobre as indicações e efeitos secundários das diferentes fórmulas parenterais e enterais disponíveis no mercado, permitindo detectar precocemente algum risco para intolerância.

A avaliação dos dispositivos e equipamentos para administração da TN no momento que precede a instalação é atividade inerente do enfermeiro, procurando garantir segurança na manipulação das vias, menor desperdício e risco de complicações e efetividade na infusão. Com auxílio do Serviço de Controle e Epidemiologia Hospitalar (SCIEH), protocolos deverão ser elaborados quanto à periodicidade da troca dos dispositivos e dos frascos da dieta enteral e nutrição parenteral, minimizando riscos de contaminação. Ainda nesta etapa, o enfermeiro deverá proceder na colocação da sonda enteral ou auxiliar na seleção da via de acesso.

A etapa 2 inicia-se com o recebimento da dieta enteral e ou frasco da nutrição parenteral dos Setores de Nutrição e ou Farmácia. Nesta fase, em várias instituições, inicia-se a dupla checagem das prescrições e das soluções garantindo uso seguro e correto, envolvendo controle de temperatura dos frascos de nutrição parenteral e instalação com técnica asséptica.

Durante a administração da TN (fase 3), o monitoramento deverá ser mais amplo. A assistência será realizada com o paciente pela observação de sinais de intolerância às fórmulas e prevenção do risco de complicações; com os dispositivos, pelo cumprimento de protocolos para prevenção de interações droga-nutrientes e complicações mecânicas, troca de curativos peri-cateter ou sondas de gastrostomias minimizando riscos de contaminação e com a infusão correta das soluções prescritas em doses plenas procurando atingir o aporte calórico-proteico calculado pela EMTN. O planejamento educacional ao paciente e sua família deve se iniciar nesta etapa, sendo considerado importante estratégia na prevenção de complicações.

A etapa final ocorrerá na transição da dieta enteral para via oral, após avaliação da efetividade da terapia, com obtenção de resultados esperados ou no preparo do paciente para alta domiciliar, com a continuidade do processo educacional. No preparo para alta domiciliar, o enfermeiro e sua equipe devem elaborar um plano de acordo com as necessidades do paciente, garantindo que as orientações sejam cumpridas efetivamente no domicílio.

O Gerenciamento do cuidado também faz parte das etapas do processo porque permite avaliar o desempenho de todas as atividades de enfermagem. Nesta etapa são coletados indicadores de qualidade, procurando verificar o cumprimento das atividades clínicas e administrativas, identificar melhorias necessárias, elevar os níveis de segurança dos pacientes, equipe de saúde e familiares e aumentar o nível da qualidade assistencial.


Quais são as modalidades de terapia nutricional e do que trata cada uma?

A TN pode ser dividida em Terapia Nutricional Enteral e Terapia Nutricional Parenteral.
A TNE é um conjunto de procedimentos terapêuticos para manutenção ou recuperação do estado nutricional do paciente por meio da nutrição enteral.  A dieta enteral é definida como alimento para fins especiais, com ingestão controlada de nutrientes, na forma isolada ou combinada, de composição definida ou estimada, especialmente formulada e elaborada, industrializada (sistema fechado) ou não (sistema aberto), utilizada exclusiva ou parcialmente para substituir ou complementar a alimentação em pacientes desnutridos ou não, conforme suas necessidades nutricionais, em regime hospitalar, ambulatorial ou domiciliar, visando a síntese ou manutenção dos tecidos, órgãos ou sistemas. Este tipo de terapia pode ser administrada para uso por sondas enterais, sondas de gastrostomias ou sondas de jejunostomias ou por via oral por meio de suplementos.
A TNP é um conjunto de procedimentos terapêuticos para manutenção ou recuperação do estado nutricional do paciente por meio da nutrição parenteral, sendo uma solução ou emulsão, composta basicamente de carboidratos, aminoácidos, lipídios, vitaminas e minerais, estéril e apirogênica, acondicionada em recipiente de vidro ou plástico, destinada à administração intravenosa em pacientes desnutridos ou não, em regime hospitalar, ambulatorial ou domiciliar visando a síntese ou manutenção dos tecidos, órgãos ou sistemas. Atualmente são classificadas em dois tipos de sistemas: o sistema individualizado (quando prescrita formulação específica para cada paciente) e formulações padrão (padronizadas para cada grupo de patologias ou pacientes). Outra denominação amplamente utilizada é a nutrição parenteral industrializada (pronta para uso- “read-to-use”). A nutrição parenteral pode ser administrada por meio de cateteres intravenosos de curta permanência (inserção periférica ou centrais de inserção periférica) ou de longa permanência (tuneilizados ou implantáveis), conforme a rotina institucional.


A enfermagem também orienta o paciente e seus familiares?

O plano educacional é outra atribuição essencial do enfermeiro porque através da comunicação é possível minimizar complicações e garantir maior segurança ao paciente, familiar e ou cuidador. Este processo é bastante enriquecedor porque permite avaliar as necessidades do paciente e os riscos potenciais para que o cuidado não seja cumprido efetivamente no domicílio. Como rotina das atividades de enfermeira da EMTN, a abordagem educacional ocorre desde o momento em que inicia-se a terapia sendo uma estratégia para maior entendimento e colaboração do paciente e familiar, estabelecendo também um vínculo com o grupo pois as visitas do grupo no HCor ocorrem diariamente.


A senhora escreveu a obra “Enfermagem em Terapia Nutricional”. Conte-nos um pouco sobre esta experiência e a importância desta leitura para os colegas que atuam em terapia nutricional.

Foi uma experiência bastante enriquecedora, pois contou com o apoio e colaboração dos enfermeiros do Comitê de Enfermagem da SBNPE e de enfermeiras da Federação Latino-Americana de Nutrição Parenteral e Enteral (FELANPE). A necessidade surgiu da procura de um livro específico e direcionado à equipe de enfermagem. Participei como co-autora em inúmeras obras da área multiprofissional, mas observava carência de literatura quando o tema era voltado à enfermagem e terapia nutricional, escrito por profissionais especialistas. Minha preocupação inicial foi elaborar um livro abrangente e de fácil compreensão e, na finalização desta obra tive uma grande surpresa, deparei-me com um conteúdo altamente rico, pois constava desde as primeiras práticas até sua evolução na América Latina. Esta obra pode proporcionar ao leitor uma viagem pela história da enfermagem na TN, procura esclarecer dúvidas sobre as atuais legislações, descreve o papel das fórmulas enterais e parenterais utilizadas na prática clínica, apresenta os avanços tecnológicos quanto aos dispositivos mais utilizados e também discute sobre o gerenciamento de riscos. Atualmente o livro está sendo utilizado como referência para várias faculdades em cursos de graduação e pós-graduação, para EMTNs de diversos hospitais e até mesmo para público multiprofissional que desconhecia a atuação do enfermeiro na Terapia Nutricional.


Como é a especialização nesta área?

Há duas formas para obtenção do título de especialista em terapia nutricional. A primeira pode ser obtida por meio de prova de título de especialista em Nutrição Parenteral e Enteral pela Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE). A obtenção do título pela Sociedade ocorre por meio de nota em prova aplicada por esta associação, análise curricular e comprovante de atuação na área por no mínimo dois anos. Outra forma é a pós-graduação multiprofissional em Terapia Nutricional em cursos reconhecidos pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), com carga horária acima de 360 horas promovidos por instituições reconhecidas em nosso meio, como, por exemplo, o Instituto de Metabolismo e Nutrição (IMeN) e o Grupo de Apoio à Nutrição Enteral e Parenteral (GANEP). Nos cursos de pós-graduação, a estrutura curricular engloba fundamentos de nutrição; terapia nutricional especializada nas diferentes situações clínicas, farmacologia, assistência de enfermagem, dentre outros.


A senhora sabe nos dizer quantos enfermeiros são especialistas em nutrição enteral e parenteral no Brasil?

Segundo publicação realizada por Santos & Ceribelli, em 2006, foi verificado que havia 47 enfermeiros especialistas em Terapia Nutricional, com titulação obtida pela SBNPE. Nos levantamentos atuais da respectiva sociedade, temos percebido que anualmente vários profissionais realizam prova para título de especialista. No momento, acreditamos que existam cerca de 60 especialistas em todo o Brasil.


Como presidente do Comitê de Enfermagem da SBNPE, o que pode nos contar sobre a atuação deste departamento dentro da Sociedade?

É um departamento que surgiu concomitante à criação da SBNPE na década de 70, com as enfermeiras Maria Isabel Pedreira de Freitas, Ymiracy Nascimento de Souza Polak e Suely Itsuko Ciosak. O espaço obtido na área hospitalar com atuação exclusiva foi também graças à atuação das respectivas enfermeiras, pela elaboração de protocolos de enfermagem, normatização de produtos para administração das terapias e realização de inúmeras pesquisas com resultados satisfatórios. Com objetivo de fortalecer o comitê, a atual gestão tem procurado realizar uma ampla divulgação desta especialidade durante os congressos promovidos pela sociedade, nos workshops práticos para enfermeiros, nos cursos promovidos em diversos hospitais enfocando a prática deste profissional e recentemente, otimizado com o lançamento do primeiro livro especializado para enfermagem. Recentemente, o grupo também participou na coordenação dos trabalhos para elaboração das Diretrizes em Terapia Nutricional (DITEN), promovido pela SBNPE. O DITEN foi um projeto multiprofissional que procurou estabelecer diretrizes e normatizações atualizadas, seguindo as principais recomendações das sociedades norte-americana e europeia. O departamento também tem sua representatividade, atuando ativamente na Federação Latino-Americana de Nutrição Parenteral e Enteral (FELANPE) com grupos de enfermeiras na América Latina, como Argentina, Colômbia, Peru, Uruguai, dentre outros. Em parceria com este grupo, recentemente lançou um Guia de Estándares de Enfermagem, onde aborda a prática assistencial e as principais recomendações.


“A obtenção do título pela Sociedade ocorre por meio de nota em prova aplicada por esta associação, análise curricular e comprovante de atuação na área por no mínimo dois anos”


Quais foram as conquistas para a enfermagem?

Tivemos várias conquistas graças ao pioneirismo das enfermeiras na SBNPE.  Os resultados foram o maior reconhecimento da atuação por demais profissionais da equipe; a importância da exclusividade dos enfermeiros nas EMTNs, reconhecimento como profissionais especialistas para tomada de decisões como na seleção e aquisição de materiais e equipamentos em TN e atuação efetiva na minimização dos efeitos da desnutrição. Nós, enfermeiras de EMTN começamos a ter um olhar criterioso quanto aos pacientes em risco de desnutrição tanto no momento da admissão como durante a hospitalização; procuramos sistematizar o cuidado com o objetivo de que pacientes tenham o aporte calórico-proteico desejado e implantamos programas de educação continuada para que a equipe de enfermagem tivesse maior adesão e segurança no cumprimento das rotinas de forma efetiva e o paciente/família, maior aceitação dos propósitos da terapia. Outro ponto fundamental é o gerenciamento de riscos em todas as etapas da Terapia Nutricional, seja avaliando as prescrições médicas, seja durante a administração da terapia ou até mesmo na finalização, implantando processos de melhoria e evitando uso inadequado por imprudência, imperícia ou negligência.


Quais são as suas competências enquanto coordenadora técnico-administrativa da EMTN do Hospital do Coração?

Para esta função, o enfermeiro deve, preferencialmente, possuir título de especialista reconhecido em área relacionada à TN e, como coordenadora da equipe, conhecer as atribuições de cada membro (médico, nutricionista, farmacêutico).

As atividades desenvolvidas como enfermeira especialista de área somam às  competências como coordenadora técnica da EMTN-HCor, sendo cumpridas efetivamente:

- Assegurar condições para o cumprimento das atribuições gerais da equipe e dos profissionais, visando a qualidade e efetividade da Terapia Nutricional;

- Representar a equipe em assuntos relacionados com as atividades da EMTN;

- Promover e incentivar programas de educação continuada, para todos os profissionais envolvidos na Terapia Nutricional, devidamente registrados;

- Padronizar indicadores de qualidade em Terapia Nutricional, para aplicação pela EMTN;

- Gerenciar aspectos técnico-administrativos das atividades da Terapia Nutricional;

- Gerenciar aspectos relacionados a custo-efetividade das terapias implantadas.

Estas competências se estendem além das normatizações do Ministério da Saúde, porque também cumprimos as recomendações de um programa de acreditação internacional, garantindo maior segurança aos nossos processos e aos colaboradores. Outro ponto fundamental como enfermeira de EMTN foi também disseminar os resultados positivos desta prática e formar novos colaboradores por meio de um grupo de estudos de enfermagem no HCor.

Cláudia Matsuba é enfermeira especialista em Nutrição Parenteral e Enteral e em UTI, coordenadora técnico-administrativa da Equipe Multidisciplinar em Terapia Nutricional do Hospital do Coração, de São Paulo, e presidente do Comitê de Enfermagem da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral (SBNPE)

Fonte: http://www.portaldaenfermagem.com.br/entrevistas_read.asp?id=52